Há uns anos, fiz um curso de quinze dias que deixou o professor pasmado. Ele comentava com quem o tinha convencido a dar aquele curso que nas suas aulas normais os alunos não estavam atentos (não seriam todos, acrescento eu), tinham pressa de ir embora, não manifestavam grande interesse pelo assunto. E ali estava ele, a mesma pessoa, com um grupo de alunos diferente, cada aluno com um background completamente diferente do do lado, de diferentes nacionalidades, e a situação era quase o reverso do que o que este professor estava habituado. A atenção era total, o interesse também, e quando o tempo terminava nenhum dos alunos arrumava as coisas para ir embora, antes continuava o trabalho que estava a fazer, ou a tirar as dúvidas que tinham surgido, e depois, muito lentamente, depois de serem relembrados várias vezes que a aula tinha acabado, lá arrumavam as tralhas e seguiam para o ponto seguinte do programa (o jantar!).
Até hoje estou convencida que a diferença era que todos estes alunos tinham escolhido aquele curso, aquele tema, porque à partida estavam interessados nele. Não porque os pais os tinham obrigado a ir para ali, não porque sentiam que aquilo era um passo necessário na vida (não era), não porque lhes fosse dar melhores perspectivas de emprego (mas talvez ajudasse), não por nenhuma razão externa excepto o gosto pelo tema. Era um curso extra curricular, numa língua estrangeira para todos, com gente que não conheciam, com promessas de festa à mistura, mas suficientemente técnico para suscitar interesse por si próprio. E durante aquelas semanas aprendemos uma data de coisas sobre as quais não tínhamos a mínima noção à partida, desfrutámos da aprendizagem, fomos a festas todas as noites, e fizemos um professor muito feliz.
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06 outubro 2011
09 outubro 2009
Genial
Ide lá ver a história fantástica do casal de velhos apaixonados.
Que me fez lembrar de outra, a minha sem graça nenhuma, dos velhotes do parque de campismo. Ano após ano, os velhotes ocupavam o mesmo espaço no parque de campismo. Tinham uma caravana em frente à qual se cozinhava e onde comiam as refeições. Em redor da árvore em frente tinham plantado coentros que utilizavam na confecção dos pratos. Já não me lembro assim muito bem destes velhos. Só dos comentários que ouvia acerca deles. Porque era o velho que cozinhava. Porque depois das refeições era o velho que fazia o café enquanto a velha continuava refastelada na cadeirinha. Até a louça, devia ser o velho que a lavava, enquanto a velha, sem desculpa nenhuma aparente, lia o jornal ou um livro qualquer. Os homens (os outros velhos) viam isto e revoltavam-se com o velho que fazia tudo para a sua velha, que não fazia nada que se visse. Eu achava-lhes graça. E uma coisa é certa, nunca vi estes dois discutir.
Que me fez lembrar de outra, a minha sem graça nenhuma, dos velhotes do parque de campismo. Ano após ano, os velhotes ocupavam o mesmo espaço no parque de campismo. Tinham uma caravana em frente à qual se cozinhava e onde comiam as refeições. Em redor da árvore em frente tinham plantado coentros que utilizavam na confecção dos pratos. Já não me lembro assim muito bem destes velhos. Só dos comentários que ouvia acerca deles. Porque era o velho que cozinhava. Porque depois das refeições era o velho que fazia o café enquanto a velha continuava refastelada na cadeirinha. Até a louça, devia ser o velho que a lavava, enquanto a velha, sem desculpa nenhuma aparente, lia o jornal ou um livro qualquer. Os homens (os outros velhos) viam isto e revoltavam-se com o velho que fazia tudo para a sua velha, que não fazia nada que se visse. Eu achava-lhes graça. E uma coisa é certa, nunca vi estes dois discutir.
31 agosto 2009
Dos livros
Passei uma boa parte da infância enfiada na biblioteca. Comecei pela biblioteca itinerante da Gulbenkian - a carrinha cinzenta que passava de vez em quando - passei pelo que foi a biblioteca municipal (a que não emprestava livros, só permitia a sua leitura no local) e depois mudei-me para o que se tornou a mistura das duas (daquela estante não se podem levar livros para casa, das outras podem-se levar 5 de cada vez). Passei ali muitas manhãs, e muitas tardes, a ler os livros mais pequenos, levava sempre 5 para casa e nas férias de verão e nas outras todos os dias ia trocar por mais uma dose. Lia os meus e a maior parte dos que as minhas irmãs requisitavam, e quando os livros vinham já muito manuseados, às vezes colava-lhes as capas ou uma ou outra folha solta com fita cola. Nunca escrevi nos livros, e que me lembre, não era costume eles virem rabiscados.
Quando ia aos meus avós, tanto de um lado da família como do outro, uma das actividades que levava a cabo enquanto os adultos se abstraíam da minha presença (vá lá, quando eu desaparecia da vista deles sem que eles notassem) era investigar as casas. Na casa dos meus avós paternos rebuscava os quartos e as estantes à procura de tesouros (havia tantos!) e encontrava bichos em álcool, um microscópio, um pífaro que rapidamente desapareceu (hoje desconfio que foi o meu pai, farto de o ouvir, que lhe deu sumiço), livros e mais livros, e componentes eléctricos que na altura não sabia identificar. Na casa dos meus avós maternos rebuscava o quarto da minha tia, que tinha um poster dos ABBA na parede, e gostava de ir ao sótão, onde havia imensas teias de aranhas, alguns buracos na madeira do soalho, e a luz do sol entrava pelas frestas das telhas. A minha avó dizia para não ir lá para cima, que havia ratos, mas eu não só nunca tinha visto nenhum como não tinha medo - suponho que, nessa altura, se algum dia tivesse encontrado um rato ainda o transformava em animal de estimação ou então torturava-o para que aprendesse a voar. E nesta casa não me lembro dos livros, mas lembro-me de encontrar dezenas de revistas juvenis do tempo do antigo regime, que eu li de uma ponta à outra (bem, quase), que tinham histórias por capítulos e me faziam ansiar pelo exemplar que faltava lá no meio.
Quando fui viver para o Porto, já com 18 anos, terminou a minha infância - pelo menos a parte que eu me dava ao luxo de ser infantil 95% do tempo. Não voltei a frequentar bibliotecas por prazer, apenas por necessidade, não voltei a rir às gargalhadas sob o olhar severo da bibliotecária (que nunca acreditou que eu lia os livros que levava para casa, e nem lhe passou pela cabeça que eu também lesse os outros que as minhas irmãs traziam com elas), nem voltei a ler livros velhos em casa de familiares, e a coisa mais parecida com ler livros que passaram de mão em mão era partilhar os livros que comprava com as minhas irmãs e, de vez em quando, pedir um emprestado às amigas.
E depois...
...fui de férias. Encontrei uma estante com livros a chamar por mim. Livros deixados por outros viajantes, uns novos, provavelmente lidos apenas uma vez, outros semi-novos, e outros velhos, de folhas soltas e fita cola a prender a capa. E redescobri o prazer de ler um livro que já foi folheado uma e outra vez, de ler uma história que nitidamente já deu prazer a outras pessoas, de tocar aquelas páginas que já tinham sido tocadas por muitos outros dedos. Tenho saudades da "minha" bibilioteca, que funcionava num edifício antigo, de rés-do-chão e primeiro andar, das escadas que rangiam, do soalho de manteiga, do boneco da máquina de bolas-surpresa na loja do outro lado da estrada que dizia, em espanhol, "holla, como te llamas? quiero ser como tu. a ver se puedes divinar" todo o dia, sem se cansar, sem me incomodar.
(os meus vizinhos têm uma biblioteca imensa na cave. vou começar a levar livros emprestados.)
Quando ia aos meus avós, tanto de um lado da família como do outro, uma das actividades que levava a cabo enquanto os adultos se abstraíam da minha presença (vá lá, quando eu desaparecia da vista deles sem que eles notassem) era investigar as casas. Na casa dos meus avós paternos rebuscava os quartos e as estantes à procura de tesouros (havia tantos!) e encontrava bichos em álcool, um microscópio, um pífaro que rapidamente desapareceu (hoje desconfio que foi o meu pai, farto de o ouvir, que lhe deu sumiço), livros e mais livros, e componentes eléctricos que na altura não sabia identificar. Na casa dos meus avós maternos rebuscava o quarto da minha tia, que tinha um poster dos ABBA na parede, e gostava de ir ao sótão, onde havia imensas teias de aranhas, alguns buracos na madeira do soalho, e a luz do sol entrava pelas frestas das telhas. A minha avó dizia para não ir lá para cima, que havia ratos, mas eu não só nunca tinha visto nenhum como não tinha medo - suponho que, nessa altura, se algum dia tivesse encontrado um rato ainda o transformava em animal de estimação ou então torturava-o para que aprendesse a voar. E nesta casa não me lembro dos livros, mas lembro-me de encontrar dezenas de revistas juvenis do tempo do antigo regime, que eu li de uma ponta à outra (bem, quase), que tinham histórias por capítulos e me faziam ansiar pelo exemplar que faltava lá no meio.
Quando fui viver para o Porto, já com 18 anos, terminou a minha infância - pelo menos a parte que eu me dava ao luxo de ser infantil 95% do tempo. Não voltei a frequentar bibliotecas por prazer, apenas por necessidade, não voltei a rir às gargalhadas sob o olhar severo da bibliotecária (que nunca acreditou que eu lia os livros que levava para casa, e nem lhe passou pela cabeça que eu também lesse os outros que as minhas irmãs traziam com elas), nem voltei a ler livros velhos em casa de familiares, e a coisa mais parecida com ler livros que passaram de mão em mão era partilhar os livros que comprava com as minhas irmãs e, de vez em quando, pedir um emprestado às amigas.
E depois...
...fui de férias. Encontrei uma estante com livros a chamar por mim. Livros deixados por outros viajantes, uns novos, provavelmente lidos apenas uma vez, outros semi-novos, e outros velhos, de folhas soltas e fita cola a prender a capa. E redescobri o prazer de ler um livro que já foi folheado uma e outra vez, de ler uma história que nitidamente já deu prazer a outras pessoas, de tocar aquelas páginas que já tinham sido tocadas por muitos outros dedos. Tenho saudades da "minha" bibilioteca, que funcionava num edifício antigo, de rés-do-chão e primeiro andar, das escadas que rangiam, do soalho de manteiga, do boneco da máquina de bolas-surpresa na loja do outro lado da estrada que dizia, em espanhol, "holla, como te llamas? quiero ser como tu. a ver se puedes divinar" todo o dia, sem se cansar, sem me incomodar.
(os meus vizinhos têm uma biblioteca imensa na cave. vou começar a levar livros emprestados.)
08 agosto 2009
É (f) lixado. Com F grande.
Não se faz. Deixam-me assim um vídeo num blog, e eu que até tinha tempo, para variar, fui ver, e sai-me isto:
Tive uma amiga que morava ali, ao pé da ponte da Arrábida. Morava por cima de um café e tinha imensos bichos em casa, dizia ela que era por causa do café. Passei uma noite ali, a estudar com ela, e depois safei-me no exame, por causa daquela ajuda preciosa. A minha amiga era o máximo. Uma força da natureza, pulmões de aço, uma força que nunca mais acabava, mesmo quando a vida lhe corria mal. E uma gargalhada enorme, cheia de vida, contagiante, extraordinária.
Vivi uma data de anos no Porto e nunca vi os barcos rabelos no rio. Dizem que fazem uma corrida todos os anos no S.João. Também nunca fui ao S.João. Mas fui várias vezes ao S.Pedro da Afurada com um amigo, e tive que me abrigar do fogo de artifício, pois havia pedaços a cair do céu ali mesmo, no meio das pessoas. E uma vez atravessei o rio num barquito, éramos dois mais o dono do barco e estava sol, e depois fomos passear. E uma vez entrei por ali numas tasquinhas que tinham pior aspecto que a taberna da aldeia onde vivi quando tinha 4 ou 5 anos, e não comi nada porque tudo me metia impressão. E ainda assim gostei da experiência.
Subi aos Clérigos algumas vezes, com companhias diferentes. E uma das vezes, acho que foi só uma, arrepiei alguém até ao âmago da alma, sem sequer lhe tocar.
Lembro-me da primeira vez que olhei para o Porto ao longe, à noite, de um andar alto num prédio de Gaia. E da primeira noite em que calcorreei aquelas ruas sozinha, de dois concertos de bandas que eu gostava seguidos, e depois ter decorado um número de telefone que recordei durante anos mas que nunca usei.
As viagens de eléctrico até à foz, as tardes de gazeta passadas no Homem do Leme, os velhotes que por ali andavam, o alcatrão na areia. E mais tarde, muito mais tarde, muitos almoços por aquelas esplanadas. E alguns cafés também, e passeios. Bom tempo, nevoeiro, chuva miudinha. Jogging aos sábados de manhã. Risos, amigos, conversas sérias em que decidíamos o que fazer do mundo.
As visitas das amigas, as noites na Ribeira, fechar discotecas, perder-me no caminho para casa. A época de exames e decidirmos sair à uma da madrugada, porque a vida não era só estudar. Os passeios às caves do vinho do Porto. Santa Catarina, Cedofeita, as ruas de paralelos. E aquele restaurantezinho escondido numa rua minúscula, que só estava aberto para o almoço, com a sua meia dúzia de mesas sempre a abarrotar, que servia batatas fritas verdadeiras e comida deliciosa que era preparada por uma senhora e a sua mãe.
E os amigos em casa de quem eu também me sentia em casa e em família. E os concertos no coliseu, e as primeiras idas ao cinema. Os autocarros no Bolhão, e os outros na Batalha. Ver Portugal jogar no Dragão. Ser convidada a deixar os restaurantes, por ser tarde, e depois a mesma cena à porta dos restaurantes. Festejar um aniversário num bar irlandês que eu gostava. A sensação de não se saber o que se andava a fazer, nem por onde se andava.
Fogo.
(E a praia da Madalena. E a de Leça. E outra mais a Norte que descobri sozinha e era a minha favorita. E a estação de S.Bento e a de Campanhã. Viagens de comboio até Espinho, ou Aveiro, ou Coimbra, ou Lisboa, ou o Algarve.)
O Mundo era muito diferente. Ou não, eu é que hoje em dia tenho outra perspectiva. Mas isto tudo por causa de três minutos de imagens. É obra.
Tive uma amiga que morava ali, ao pé da ponte da Arrábida. Morava por cima de um café e tinha imensos bichos em casa, dizia ela que era por causa do café. Passei uma noite ali, a estudar com ela, e depois safei-me no exame, por causa daquela ajuda preciosa. A minha amiga era o máximo. Uma força da natureza, pulmões de aço, uma força que nunca mais acabava, mesmo quando a vida lhe corria mal. E uma gargalhada enorme, cheia de vida, contagiante, extraordinária.
Vivi uma data de anos no Porto e nunca vi os barcos rabelos no rio. Dizem que fazem uma corrida todos os anos no S.João. Também nunca fui ao S.João. Mas fui várias vezes ao S.Pedro da Afurada com um amigo, e tive que me abrigar do fogo de artifício, pois havia pedaços a cair do céu ali mesmo, no meio das pessoas. E uma vez atravessei o rio num barquito, éramos dois mais o dono do barco e estava sol, e depois fomos passear. E uma vez entrei por ali numas tasquinhas que tinham pior aspecto que a taberna da aldeia onde vivi quando tinha 4 ou 5 anos, e não comi nada porque tudo me metia impressão. E ainda assim gostei da experiência.
Subi aos Clérigos algumas vezes, com companhias diferentes. E uma das vezes, acho que foi só uma, arrepiei alguém até ao âmago da alma, sem sequer lhe tocar.
Lembro-me da primeira vez que olhei para o Porto ao longe, à noite, de um andar alto num prédio de Gaia. E da primeira noite em que calcorreei aquelas ruas sozinha, de dois concertos de bandas que eu gostava seguidos, e depois ter decorado um número de telefone que recordei durante anos mas que nunca usei.
As viagens de eléctrico até à foz, as tardes de gazeta passadas no Homem do Leme, os velhotes que por ali andavam, o alcatrão na areia. E mais tarde, muito mais tarde, muitos almoços por aquelas esplanadas. E alguns cafés também, e passeios. Bom tempo, nevoeiro, chuva miudinha. Jogging aos sábados de manhã. Risos, amigos, conversas sérias em que decidíamos o que fazer do mundo.
As visitas das amigas, as noites na Ribeira, fechar discotecas, perder-me no caminho para casa. A época de exames e decidirmos sair à uma da madrugada, porque a vida não era só estudar. Os passeios às caves do vinho do Porto. Santa Catarina, Cedofeita, as ruas de paralelos. E aquele restaurantezinho escondido numa rua minúscula, que só estava aberto para o almoço, com a sua meia dúzia de mesas sempre a abarrotar, que servia batatas fritas verdadeiras e comida deliciosa que era preparada por uma senhora e a sua mãe.
E os amigos em casa de quem eu também me sentia em casa e em família. E os concertos no coliseu, e as primeiras idas ao cinema. Os autocarros no Bolhão, e os outros na Batalha. Ver Portugal jogar no Dragão. Ser convidada a deixar os restaurantes, por ser tarde, e depois a mesma cena à porta dos restaurantes. Festejar um aniversário num bar irlandês que eu gostava. A sensação de não se saber o que se andava a fazer, nem por onde se andava.
Fogo.
(E a praia da Madalena. E a de Leça. E outra mais a Norte que descobri sozinha e era a minha favorita. E a estação de S.Bento e a de Campanhã. Viagens de comboio até Espinho, ou Aveiro, ou Coimbra, ou Lisboa, ou o Algarve.)
O Mundo era muito diferente. Ou não, eu é que hoje em dia tenho outra perspectiva. Mas isto tudo por causa de três minutos de imagens. É obra.
21 junho 2009
O PG (suspiro)
O PG (suspiro) era o miúdo mais giro da escola. Andava um ou dois anos à minha frente, e passava os intervalos ao sol, no „canto dos queques“. Todas as miúdas da escola tinham um fraquinho pelo PG, que era, provavelmente, o único da escola que era sistematicamente referido pelo nome e apelido.O PG tinha dois irmãos mais velhos que ele, e eram todos diferentes. O mais velho era o menos giro (bem, nem era nada giro), o do meio também era giríssimo, moreno, de olhos castanhos enormes, e parecido com o irmão mais novo. E o mais novo, o PG, loiro de olhos azuis, meiguinho, com lábios grossos, fazia suspirar as meninas todas. Era o filho mais novo de uma família que queria ter tido uma menina, num tempo em que não se sabia o sexo dos filhos antes de eles nascerem, e tinha tido toda a vida um quarto pintado de cor de rosa. Ele não se importava. Aliás, ele foi o primeiro rapaz que algum dia vi usar uma camisola rosa pálido (ou quase isso) muito antes de a moda masculina ditar que os homens também se podem vestir de cor de rosa (embora nem a todos fique bem).
O PG „trabalhava“ na rádio local, e tinha uma voz que só por si derretia corações. Quantas miúdas ouviriam os programas dele, incluindo o programa do sábado à hora do almoço sobre fórmula 1, só para continuarem a suspirar.
Sendo o rapaz mais giro do nosso raio de acção, por onde ele passasse ficávamos a admirá-lo (suspiro). Quando ele arranjou uma namorada que vivia perto de mim, ficava a vê-lo desde o fim da rua até que passava quase à minha porta e depois seguia. Se fosse hoje, o PG provavelmente teria tido centenas de admiradoras que discretamente lhe tirariam fotos com o telemóvel, para depois, embevecidas, olharem e voltarem a adorar o rapaz mais giro que conheciam. (Qual Brad Pitt, o PG é que era.)
Claro que isto já foi há muito tempo. Se bem me lembro, o PG e a última namorada tiveram um bebé ainda antes de eu ter saído da minha terra, e provavelmente devem ter casado, deitando por terra os sonhos de algumas miúdas da zona (mas não os suspiros). Há uns tempos, alguém que nunca soube desta história veio-me contar o que faz agora o PG. Continua a viver no mesmo sítio, e tem um trabalho que implica ir a casa das pessoas resolver problemas. Quando ouvi isto (e não podia perguntar nada) tive logo que telefonar a contar as novidades às minhas irmãs. Sim, o PG ainda existe, e sabemos exactamente onde o encontrar (suspiro). E entretanto já fui à minha terra e passei por ele na rua. Continua tão giro como sempre foi. Deve continuar a arrancar suspiros ao mulherio, e não me admirava nada que certas coisas, em certas casas, „avariassem“ só para que ele tivesse que passar por lá. Ah, o PG (suspiro)!
O PG „trabalhava“ na rádio local, e tinha uma voz que só por si derretia corações. Quantas miúdas ouviriam os programas dele, incluindo o programa do sábado à hora do almoço sobre fórmula 1, só para continuarem a suspirar.
Sendo o rapaz mais giro do nosso raio de acção, por onde ele passasse ficávamos a admirá-lo (suspiro). Quando ele arranjou uma namorada que vivia perto de mim, ficava a vê-lo desde o fim da rua até que passava quase à minha porta e depois seguia. Se fosse hoje, o PG provavelmente teria tido centenas de admiradoras que discretamente lhe tirariam fotos com o telemóvel, para depois, embevecidas, olharem e voltarem a adorar o rapaz mais giro que conheciam. (Qual Brad Pitt, o PG é que era.)
Claro que isto já foi há muito tempo. Se bem me lembro, o PG e a última namorada tiveram um bebé ainda antes de eu ter saído da minha terra, e provavelmente devem ter casado, deitando por terra os sonhos de algumas miúdas da zona (mas não os suspiros). Há uns tempos, alguém que nunca soube desta história veio-me contar o que faz agora o PG. Continua a viver no mesmo sítio, e tem um trabalho que implica ir a casa das pessoas resolver problemas. Quando ouvi isto (e não podia perguntar nada) tive logo que telefonar a contar as novidades às minhas irmãs. Sim, o PG ainda existe, e sabemos exactamente onde o encontrar (suspiro). E entretanto já fui à minha terra e passei por ele na rua. Continua tão giro como sempre foi. Deve continuar a arrancar suspiros ao mulherio, e não me admirava nada que certas coisas, em certas casas, „avariassem“ só para que ele tivesse que passar por lá. Ah, o PG (suspiro)!
16 junho 2009
1-2-3
Não me apetece escrever nada. É do tempo (ah o tempo), que tem estado muito mau para a altura do ano, e eu já começo a desesperar a pensar que não vai haver verão. Dizem que não, que o verão vem amanhã (mas por quanto tempo? um dia, dois?), mas eu já não acredito em nada, e arrependo-me de não ter tirado licença sem vencimento em Julho e Agosto para poder ter um verão a sério, num daqueles países onde há verão a sério. Isto do tempo é uma coisa chata, uma pessoa cresce num determinado clima e depois só quer aquilo para o resto da vida e nada se lhe compara. À conta do clima da minha infância, só considero que está "calor" quando as pingas de suor escorrem pelos joelhos abaixo, o que implica alguns graus acima dos trinta, o que não há em todo o lado. E quando me faltam semanas sem uma nuvem, começo a pensar que vem aí o fim do mundo e nunca mais verei o sol - e a planear maneiras de escapar. Como, infelizmente, o último plano que tive para ir apanhar sol correu muito mal (o meu país a deixar-me ficar mal, não se admite), agora ando por aqui a entrar em paranóia, que as férias estão quase a chegar e será que desta vez é que é, e será que quinze dias de sol chegam para me curar. É que Junho já está na recta final e eu continuo tão branca como em Janeiro. Ou Fevereiro. (Ou Março, Abril, ou Maio. Isto está muito mau.)
Para me pôr a pensar em coisas mais felizes, está cá a Rita. Primeiro com a lembrança das Gémeas no Colégio de Santa Clara (ainda há uns dias discutia com as minhas irmãs a Mademoiselle, professora de francês, a quem as alunas chamavam "Mademoiselle Abominable" porque quando não gostava de alguma coisa dizia "C'est abominable!"). Andava a pensar em emprestar esses livros ao meu filho, mas eles foram tão lidos que estão a cair aos bocados, e duvido que sobrevivessem à falta de cuidados do meu rapaz. Mas talvez ainda mude de ideias. (E corra o risco que, a ele também, lhe apeteça fazer piqueniques à meia-noite, que os livros contribuem para acordar os bichos carpinteiros adormecidos.)
E depois, a Joanna. Que é como quem diz, o "só mais uma vez". A minha mãe dizia (ainda diz, quando lhe damos a oportunidade) que "a matemática é como as cerejas, quando puxamos uma vem logo outra agarrada". Mais ou menos isto. Eu diria que a música é como as cerejas, pensamos numa e lembramo-nos logo de outras. Ora o "Só mais uma vez" (amanhã talvez ♪♫) vem agarrado ao "dia de domingo" (da Gal Costa), que por sua vez vem agarrado ao "calhambeque" (pi!pi!♫) do Roberto Carlos, que me faz lembrar da Rosinha dos Limões (um fado, do Nuno da Câmara Pereira, se não estou em erro). E isto tudo traz-me verões passados agarrada ao meu transístor (sim, que aquilo nem era um rádio a sério nem nada), a ouvir a rádio da terra, onde uns rapazes engraçados faziam uns programas divertidos enquanto passavam estas e outras músicas (aquilo à noite melhorava bastante) e se riam pela noite fora com os microfones ligados. E nestas noites quentes e cheias de alegria do lado da emissão ficava a pensar que tinha que crescer mais um bocado, para também poder sair e divertir-me tanto quanto eles. Ainda hoje me custa ficar em casa à noite quando está mesmo calor e parece que se está tudo a passar lá fora (ah, eu bem oiço a música e os risos).
(e depois, um dia, parece que fica tudo sério e falamos sobre o tempo porque já não queremos partilhar o resto, ou porque já não podemos discutir a música que passa na rádio ou os desenhos animados e a rua sésamo, ou porque não temos intervalos para jogar à bola, e namorar nas traseiras do local de trabalho parece suicídio, e nem sequer devemos aparecer de calções e/ou joelhos esfolados durante a semana. e partidas, ah, mas que é isso, se nos atrevemos a mudar a imagem do desktop de alguém somos fuzilados com palavras e olhares, e ficamos sem vontade de partir para algo mais criativo. se calhar é por isso que temos filhos, para poder continuar com a diversão e ler-lhes o pequeno Nicolau. e é por isso que às vezes se levam umas garrafas de álcool para partilhar umas gargalhadas depois do expediente.)
Para me pôr a pensar em coisas mais felizes, está cá a Rita. Primeiro com a lembrança das Gémeas no Colégio de Santa Clara (ainda há uns dias discutia com as minhas irmãs a Mademoiselle, professora de francês, a quem as alunas chamavam "Mademoiselle Abominable" porque quando não gostava de alguma coisa dizia "C'est abominable!"). Andava a pensar em emprestar esses livros ao meu filho, mas eles foram tão lidos que estão a cair aos bocados, e duvido que sobrevivessem à falta de cuidados do meu rapaz. Mas talvez ainda mude de ideias. (E corra o risco que, a ele também, lhe apeteça fazer piqueniques à meia-noite, que os livros contribuem para acordar os bichos carpinteiros adormecidos.)
E depois, a Joanna. Que é como quem diz, o "só mais uma vez". A minha mãe dizia (ainda diz, quando lhe damos a oportunidade) que "a matemática é como as cerejas, quando puxamos uma vem logo outra agarrada". Mais ou menos isto. Eu diria que a música é como as cerejas, pensamos numa e lembramo-nos logo de outras. Ora o "Só mais uma vez" (amanhã talvez ♪♫) vem agarrado ao "dia de domingo" (da Gal Costa), que por sua vez vem agarrado ao "calhambeque" (pi!pi!♫) do Roberto Carlos, que me faz lembrar da Rosinha dos Limões (um fado, do Nuno da Câmara Pereira, se não estou em erro). E isto tudo traz-me verões passados agarrada ao meu transístor (sim, que aquilo nem era um rádio a sério nem nada), a ouvir a rádio da terra, onde uns rapazes engraçados faziam uns programas divertidos enquanto passavam estas e outras músicas (aquilo à noite melhorava bastante) e se riam pela noite fora com os microfones ligados. E nestas noites quentes e cheias de alegria do lado da emissão ficava a pensar que tinha que crescer mais um bocado, para também poder sair e divertir-me tanto quanto eles. Ainda hoje me custa ficar em casa à noite quando está mesmo calor e parece que se está tudo a passar lá fora (ah, eu bem oiço a música e os risos).
(e depois, um dia, parece que fica tudo sério e falamos sobre o tempo porque já não queremos partilhar o resto, ou porque já não podemos discutir a música que passa na rádio ou os desenhos animados e a rua sésamo, ou porque não temos intervalos para jogar à bola, e namorar nas traseiras do local de trabalho parece suicídio, e nem sequer devemos aparecer de calções e/ou joelhos esfolados durante a semana. e partidas, ah, mas que é isso, se nos atrevemos a mudar a imagem do desktop de alguém somos fuzilados com palavras e olhares, e ficamos sem vontade de partir para algo mais criativo. se calhar é por isso que temos filhos, para poder continuar com a diversão e ler-lhes o pequeno Nicolau. e é por isso que às vezes se levam umas garrafas de álcool para partilhar umas gargalhadas depois do expediente.)
21 janeiro 2009
Pelos caminhos...
Quando eu era pequena, muito pequena mesmo, devia ter bem menos de 6 anos, ia a Chaves frequentemente. Os meus pais tinham lá que fazer, e não tendo com quem deixar as filhas, lá íamos por arrasto. Lembro-me de poucas coisas. De brincar com um disco de plástico verde com uma ranhura do lado, onde enfiava uma palheta também verde que impulsionava o disco a voar. De fazer contas e mais contas na calculadora do meu pai, aquela à qual ele nunca mudou a pilha, em tantos anos com que brinquei com ela. De brincar com balões e rebentar alguns numa lâmpada. De esperar no carro enquanto o meu pai ia comprar cavacas, e o polícia a mandar vir porque ali não se podia estacionar. E dos rebuçados noivos, que por algum motivo só mos davam ali.
Este Natal, apeteceu-me ir a Chaves. Já não ia lá há muito muito tempo, mais de 20 anos, com toda a certeza, e não me lembrava de nada. Provavelmente o tempo invernoso, a forte geada e nevoeiro, não ajudaram a relembrar nenhum pormenor. Em tantos anos, também é muito provável que tudo tenha mudado muito. E em tudo o que vi neste passeio, só uma coisa me chamou a atenção, ainda lá estava, igualzinha, tão invulgar como sempre deve ter sido, um ponto de referência privado mas acessível à vista de toda a gente que ali passa. Não, não era uma igreja, uma capela, ou um monumento, uma estátua, uma rotunda, nem um semáforo. É a avioneta presa a um poste que desde sempre fez parte do jardim de uma casa, mesmo ao chegar a Chaves. A indicação de que se está mesmo quase a chegar ao destino. O momento a partir do qual podíamos sossegar, já não faltava quase nada. O elemento agora que faz a ligação entre o passado e o presente.
Este Natal, apeteceu-me ir a Chaves. Já não ia lá há muito muito tempo, mais de 20 anos, com toda a certeza, e não me lembrava de nada. Provavelmente o tempo invernoso, a forte geada e nevoeiro, não ajudaram a relembrar nenhum pormenor. Em tantos anos, também é muito provável que tudo tenha mudado muito. E em tudo o que vi neste passeio, só uma coisa me chamou a atenção, ainda lá estava, igualzinha, tão invulgar como sempre deve ter sido, um ponto de referência privado mas acessível à vista de toda a gente que ali passa. Não, não era uma igreja, uma capela, ou um monumento, uma estátua, uma rotunda, nem um semáforo. É a avioneta presa a um poste que desde sempre fez parte do jardim de uma casa, mesmo ao chegar a Chaves. A indicação de que se está mesmo quase a chegar ao destino. O momento a partir do qual podíamos sossegar, já não faltava quase nada. O elemento agora que faz a ligação entre o passado e o presente.
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