05 abril 2015

Dias de sol

Na minha terra, passeio de calções e t-shirt pela rua. Ficam todos a olhar com ar de espanto. Estão 24 graus. Eu uso o método científico para me vestir: acima dos 20 graus é t-shirt e pernas ao léu, com um casaco se me parecer necessário. Para lá do Marão, o ano divide-se em nove meses de inverno e três de inferno. Se o inferno ainda não chegou, deve ser inverno. Anda tudo de camisolas e sobretudo. Menos eu. Fui para fora, agora, quando venho, é só para ver a bola. É como se tivesse vindo do estrangeiro, o ar com que olham para mim. Quero lá saber. O sol está quentinho, e o céu azul. Paraíso.


17 março 2015

A baixa já não é o que era

Vou à baixa - a St.a Catarina cá do burgo - poucas vezes. Contam-se pelos dedos das mãos as visitas anuais. Não é porque fique longe e fora de mão, é porque a baixa é estranha. Para começar é sítio de turistas. Nota-se, a malta por ali tem um ar diferente, um vagar no passo, um olhar curioso. Os locais passam a correr, por necessidade da vida do dia a dia. Outros utilizam-na para se manifestar. Há sempre qualquer razão para protestar, megafone na mão, meia dúzia de pessoas que querem chamar a atenção, meia dúzia de polícias a olhar. Passo ao lado, não tenho tempo, a maior parte das vezes nem percebo o porquê destas manifs.
 Vou poucas vezes à baixa. Antes do Natal, quando tenho que tratar de burocracias ou ir ao médico. Quando posso, aproveito para dar umas voltas. Estranho sempre. Há anos que aqui moro, sinto que devia conhecer a baixa como a palma da mão. Saber de cor as lojas todas entre a Karlsplatz e a Marienplatz, dos dois lados da rua, transversais incluídas. Não sei. Não por falta de interesse, curiosidade ou atenção. A baixa de Munique é como uma cobra, troca de pele frequentemente. Ao longo dos anos apareceram e desapareceram as minhas lojas favoritas. Cada porta que trespassei tantas vezes com gosto, mais tarde ou mais cedo acaba por dar lugar a uma loja nova que não me interessa. Uma ou outra excepção, rara. De cada vez que preciso de uma coisa daquelas que só há na baixa, quando lá vou, descubro que já não há. Aquela loja onde podia ir comprar uma fatiota de emergência, com preços em conta, que não tinha 500 filiais pelo país? Desapareceu. A outra onde comprei a minha melhor escova de sempre, que perdi numa mudança, deixou de vender escovas de cabelo. O meu sítio favorito para pechinchas? Agora é uma loja de electrodomésticos.
Estranhamente, a única coisa que parece aguentar o teste do tempo é a restauração. Em alguns casos, incompreensivelmente.
Peço uma boleia. Que me venham buscar ali à beira da farmácia, onde há um parque de estacionamento. Havia um parque de estacionamento, da última vez que ali passei. Agora é uma porta enorme fechada, e uma pequena loja de arte ao lado (fraquinha, muito fraquinha). Não há referências. Depois destes anos todos, descubro finalmente onde fica a porta do Lenbachhaus. E um monumento que nunca tinha visto - só lá está há mais de sessenta anos.

10 março 2015

É só futebol - mas a vida também é assim

Lá porque normalmente não dou porrada, não quer dizer que não saiba dar. Lá por habitualmente não encostar em velocidade, não quer dizer que não alinhe num bom encosto. Lá porque não costumo bloquear o caminho ao adversário, não é porque não seja capaz de o fazer. E bem.
Pode ser só um jogo. Pode ser a menos que feijões. Mas eu vou até onde vocês quiserem ir.
(Mas cuidado, malta, não vale a pena irmos todos parar ao hospital. Já bem bastam as unhas negras e os hematomas semanais.)

(E os dias em que estamos completamente em sintonia? Passe - golo, passe - golo, canto bem apontado - golo. Há duplas incríveis. Sabe tão bem jogar assim.)

26 fevereiro 2015

Tarefa 1, check

Pronto, já está. Para celebrar o período prolongado em que não tive disposição mental para fazer outras coisas, estou a pensar em fazer uma aldeia para a criança. Com legos ou caixas de cartão. Ou as duas coisas. Bonecada não falta, estes potenciais aldeões estão ansiosos por se mudar. E isto tudo só para me ir esquecendo da segunda tarefa em fila de espera.

25 fevereiro 2015

Oferecem-se alvíssaras

Perdeu-se:

a minha capacidade de fazer multitasking

Oferecem-se alvíssaras a quem a encontrar e devolver, sã e salva.

Entretanto, as minhas desculpas, tenho uma tarefa complicada em mãos e não consigo pensar noutra coisa. Quando terminar essa, tenho uma segunda tarefa em lista de espera, mas tenho esperança de que não me tome demasiado tempo. Se entretanto recuperar o multitasking perdido, hei-de voltar a escrever. Como deve ser.

11 fevereiro 2015

Onde é que se vê daqui a 10 anos?

O meu Jon Stewart também vai abandonar o seu Daily Show. É a vida, parece, as coisas se dão em ciclos, e este ciclo está a terminar. Acho que isto explica aquela pergunta clássica das entrevistas, onde é que se vê daqui a 5 ou 10 anos. Jon Stewart faz o Daily Show há 15 anos. O meu Jon, fazia o seu há 10. Agora fará outras coisas, com certeza. E deixa espaço para que outros façam o daily show deles, e lhe imprimam formas novas de fazer humor com as notícias.
Há 10 anos eu não fazia a mínima ideia das coisas que hoje me fazem correr. Não sabia que ia passar serões a estudar, não sabia que me ia sentir insatisfeita com a minha capacidade de me exprimir. Se me tivessem perguntado qual o meu plano para hoje, de certeza que teria atirado ao lado. Muito ao lado. Há 10 anos não sabia o que sei hoje, e nem imaginava que fosse aprender tanta coisa. Há 10 anos não imaginava que 1% ou 0,1% de algo intangível pudesse ser tão importante, que quase pudesse senti-lo a escapar-me entre os dedos.
Há 10 anos fiz coisas que achava brilhantes e hoje acho apenas relativamente boas. As coisas que faço hoje em dia e que me parecem brilhantes, talvez daqui a uns anos passem a ser apenas boazinhas aos meus olhos com mais experiência.
Não consigo imaginar o que quero daqui a dez anos, não em concreto, apenas uns passinhos aqui e ali que me parecem fundamentais no imediato. Aqueles que, podendo ser os passos certos para trilhar um caminho que me leve a algum lado, podem também ser apenas os passos certos para me divertir enquanto não encontro destino.
Devia perguntar à malta mais velha, como é que é. Se passamos a vida a sentir-nos uns miúdos com muito para aprender, por mais que o tempo passe por nós. Se alguma vez passa aquela sensação de que podemos ser desmascarados a qualquer momento, mesmo que sejamos verdadeiros peritos num assunto. Como é que é quando se tem mais 40, 50, 60, e se troca de emprego, de vida, de cidade, de país. Como é que se recomeçam a construir laços. E se vale a pena.

Pensando bem, até sei a resposta a algumas destas perguntas. A felicidade vai-se construindo, sempre.


06 fevereiro 2015

Perder? Nem a feijões!

Imaginem o seguinte jogo de apostas, em que o objectivo é ganhar o máximo de pontos possível. Duas equipas, cada uma escolhe uma cor entre o vermelho e o preto. Se a equipa A escolher o vermelho e a B escolher vermelho, ganham ambas +3 pontos. Se a equipa A escolher preto e a B escolher preto, ficam ambas com -1 ponto. Se uma das equipas escolher vermelho e a outra escolher preto, a equipa que escolheu vermelho fica com -5 pontos e a que escolheu preto ganha +5 pontos.
Separam-se as equipas fisicamente para que escolham a sua estratégia antes de cada aposta. No total apostam dez vezes, em cada vez têm 5 minutos para escolher a próxima aposta.

À primeira vista, diria que a escolha lógica seria que, em cada turno, ambas as equipas apostassem sempre, sistematicamente, no vermelho. Assim ganhariam sempre 3 pontos.

No entanto, se a equipa A escolher vermelho e a B escolher preto, a equipa A perderá 5 pontos, e a B ganhará 5 pontos.

O resultado lógico será então que as equipas escolham sempre preto, por forma a minimizarem as perdas - assim ficam com -1 ponto em cada turno, mas não correm o risco de perder 10 pontos em relação à outra equipa. É de notar que se a equipa A escolher preto e a B escolher vermelho, a equipa A fica com +5 pontos, e a B com -5. Portanto, ao escolher preto, além de minimizar as perdas (o pior resultado é igualar a outra equipa), maximiza-se o lucro possível (se a outra equipa escolher vermelho, fica-se com 10 pontos de vantagem).

Depois desta análise fria e lógica, sobra ainda um pouco de natureza humana. Numa situação deste género, alguns de nós explicariam à sua equipa que o melhor a fazer seria tentar convencer a outra equipa a escolher sempre vermelho. Negociar que ambas as equipas apostassem sempre no vermelho, e assim maximizar o lucro total para ambas. Correndo o risco de ser atraiçoado - que a outra equipa concorde em apostar no vermelho, mas que na hora da verdade aposte no preto - e assim perder; ou, potencialmente, atraiçoar a outra equipa, apostando no preto apesar de ter concordado em apostar no vermelho.

O inexplicável ocorre quando a equipa A tenta negociar com a equipa B. A equipa B recusa-se a entrar em diálogo, porque quer ganhar. A equipa A explica à equipa B que, se não combinarem o que fazer, o único resultado lógico é ambas as equipas apostarem sempre no preto, e irem acumulando perdas ao longo do jogo. Ainda assim a equipa B recusa-se a ouvir, e de seguida aposta no vermelho. A equipa A, incrédula, faz a sua aposta no preto, e ganha 10 pontos de vantagem sobre a equipa B, à qual tinha acabado de explicar a sua estratégia.

Resultado final: pontos negativos para ambas as equipas, equipa A com mais 10 pontos que a equipa B.
Quem ganhou?
A equipa A terminou com mais pontos que a B, mas ambas as equipas terminaram com pontos negativos...
Análise dos comportamentos: a equipa B atribui a culpa à equipa A, por ser demasiado directa na abordagem negocial. A equipa A não compreende porque é que a equipa B, que queria ganhar a todo o custo, se recusou a negociar, e ainda para mais apostou no vermelho, pondo-se numa posição potencialmente perdedora.

Nunca vou ser gestora. Adivinhem lá qual era a minha equipa...

05 fevereiro 2015

A combinação de teclas do ano: Ctrl+Shift+T

Descobri esta no ano passado, juntamente com uma colecção de outras que, apesar de também parecerem muito úteis, claramente não eram suficientemente úteis para as memorizar. Volta e meia estou a ver uma coisa qualquer numa janela do browser, acho que cheguei ao fim, e fecho a janela (Ctrl+W). Ao fechar a janela, vejo pelo canto do olho um link para qualquer coisa que, a posteriori, queria ter lido. Ou então, fecho uma janela acidentalmente. Ctrl+Shit+T restaura automaticamente a última janela que fechámos. Sem ter que ir procurar ao histórico o endereço da página, sem ter que me lembrar como é que lá tinha ido parar inicialmente. Uso isto quase todos os dias. Pode ser que dê jeito a mais alguém.

26 janeiro 2015

05 janeiro 2015

É grave, doutor?

Devo estar doente, só pode. Lá fora esta um frio do catano, há neve, vejo um pouco de azul do céu por uma janela, por outra, branco, tudo branco, nuvens sem fim. Por email, recebo a notícia: está aí a primavera. Afinal estamos em fins de Março, mas só a H&M* é que sabe.

*se calhar só a alemã. Mas em Munique, está mais Inverno que em Portugal.


02 janeiro 2015

Nunca mais aprendo (ou a angústia de empacotar a tralha)

Na minha mala devia haver, sempre, uma segunda mala. Quando saio de casa, mala grande meia vazia, devia sempre levar uma segunda mala, vazia, para o regresso. E esta segunda mala devia fazer parte integral da primeira, encaixar na tampa ou em baixo, como aqueles sacos de compras que se dobram até parecer que apenas temos um pacote de lenços de papel extra na carteira. Não sei bem o que acontece durante as férias, mas o milagre da multiplicação ocorre sempre nesta altura: ao fazer a mala para o regresso, parece-me sempre que as minhas coisas triplicaram. A mala que veio vazia está agora a abarrotar, procuro um saco/mochila/mala que possa levar emprestado, e, mais uma vez, pergunto-me, como é que eu não me lembrei que isto me acontece sempre? Todas as vezes. Mal aterro em Portugal, é como se o conteúdo da minha mala expandisse, e de repente, fico sem um espacinho que seja para mais uma coisinha. Nem comprei nada para levar (lá se vai o meu plano de meter umas bolachas maria, um pacote de pensal chocolate, e um ou dois chouriços da minha terra), e já não cabe nem mais um alfinete. A minha mala vai é cheia de saudades, deve ser isso que me ocupa todo o espaço lá dentro.

30 dezembro 2014

Isto está a acontecer depressa demais

Amanhã é o último dia do ano. Pensava que ainda tinha mais um dia de 2014. O fim de ano está a aproximar-se em passo acelerado. Amanhã por esta hora estou a preparar-me para ir dormir a pensar que ainda faltam mais de 24 horas para a passagem de ano...

24 dezembro 2014

Embrulhos na diagonal

Eu vi este vídeo há uns tempos, e pensei, isto não é para mim. Eu nem com o vídeo acertava com isto.



Depois, numa loja, embrulharam-me uma caixa dessa maneira. Quer dizer, aproximadamente. Isto de embrulhar na diagonal até quase pode parecer simples no vídeo, e a menina que me fez o embrulho já tinha, com certeza, imensa prática, mas mesmo assim não foi tão simples como no vídeo. E eu olhava para aquela quantidade de papel, e fiquei ali tempos infindos na dúvida: explico que isto usa muito mais papel que a maneira tradicional de embrulhar presentes?

23 dezembro 2014

Há sempre uma primeira vez

Comprei uma prenda de Natal para mim própria. Não foi uma caixa de Lego.
(Agora que penso nisso, mas como é que isto é possível?! Espero que alguma alma caridosa colmate esta falha, e já agora, verifique que não estou gravemente doente. No pior dos casos, posso sempre roubar os Legos da minha filha. Temporariamente, claro.)

As melhores compras de Natal de sempre

Dois dias, na verdade, hora e meia vezes dois dias, na terrinha. Senhores, há lá nada melhor que sair de casa a pé, sabendo que a volta à vila (cidade, mas pronto, no meu tempo isto era uma vila) demora 10 minutos em passo acelerado como o meu, e que as paragens nas lojas são verdadeiros "pit stops", com probabilidade de sucesso elevada porque isto é a minha terra, e eu sei muito bem onde é que vou encontrar alguma coisa. Ontem despachei a primeira metade, hoje a segunda metade, algumas coisas vieram embrulhadas sem sequer pedir, porque, afinal de contas, é Natal, é tudo para embrulhar (não era). Ainda tenho mais de vinte e quatro horas para terminar embrulhos, por debaixo da árvore, e o que mais não me estiver a lembrar de momento.Até encontrei coisas em promoção, nunca visto por aqui. Apanhei fila numa única loja - onde comprei a prenda do meu pai - e só fiquei à espera porque há pessoas que são chatas como tudo com as prendas se lhes dá.
A parte com mais piada fica para quando tiver oportunidade de copiar para aqui uma fotografia, da série "Portugal no seu melhor", que me custou uma limpeza dos sapatos antes de chegar a casa. Sim, apesar de tudo, teve graça, que eu por estes dias ando bem disposta e tenho o meu sentido de humor no nível mais elevado - quase tudo me faz, pelo menos, sorrir.

16 dezembro 2014

Está quase

E se cá por baixo não se vê o sol, com certeza é apenas uma questão de altitude. Mais uns dias, as férias estão a chegar.


14 dezembro 2014

Os dias cinzentos

Três semanas disto. Branco sem neve, branco à frente do nariz todas as manhãs. Visibilidade quase nenhuma.

06 dezembro 2014

Sabor do ano

2014 foi o ano em que descobri o salted caramel. Caramelo e sal. E adorei, nas várias combinações possíveis. Em gelado (Häagen-Dazs por exemplo), em rebuçados (caramelos, várias marcas), no chocolate quente (Hotel Chocolat), e até no café (Starbucks nos States, o único que entrei noutro país não tinha).
Neste momento já marchava um chocolate quente com sabor a caramelo salgado. É pena aqui não haver.

04 dezembro 2014

Recuperando a magia

A miúda já tem 6 anos. Ainda não sabe ler, ainda não aprendeu as letras todas, mas isso não tem importância. Está na idade certa para sua primeira caça às prendas. Não é porque eu me tenha lembrado da tradição - perdida há uns dois ou três anos, quando achei que o rapaz já era crescido demais para estas coisas, que uma caça às prendas para um adolescente crescido ou dá demasiado trabalho ou é demasiado fácil. No outro dia ela é que se lembrou de me fazer uma caça ao tesouro. Fez uma data de folhinhas com desenhos, e mandou-me escrever as instruções. Escondeu os papelinhos dobrados, e mandou-me procurar. No final, o grande tesouro que fui encontrar, um desenho. Aos 6 anos, quase todas as coisas envolvem desenhos - na verdade, muitos deles giríssimos, emoldurados até passavam por arte, e olhem que não destoava nada nas paredes de certos museus (estou aqui a pensar no Pinakotheke der Moderne).
Como ao irmão, cedo lhe foi explicada a história do Pai Natal. A magia do Natal não obriga à existência de velhinhos de barbas e mentiras elaboradas. Pode escrever cartas ao Pai Natal na mesma, os miúdos hoje em dia são exímios na técnica de recortar catálogos e colar em papel. Sabe perfeitamente que lá porque recortou metade das coisas do catálogo não quer dizer que as vá receber. Afinal, o pai e a mãe (e o resto da família e amigos) não têm recursos ilimitados. Já o velhote de barbas... hum... E, se calhar, por isto mesmo, anda preocupada com as prendas de Natal que tem que fazer para a família. Desenhos para todos, pois claro. Ou telemóveis de papel. De onde lhe veio a ideia, não sei bem, mas acho óptimo. Até o peluche favorito tem direito a um desenho.
Pela minha parte, acho a caça às prendas simplesmente demasiado divertida. Dar a volta à casa à procura de mais pistas é muito mais interessante que retirar coisas de debaixo da árvore. Ou de um sapatinho. Ou de uma meia. E criar uma brincadeira destas para uma criança de seis anos é um prazer.