04 junho 2014

Almas gémeas

Por amor aos filhos (à filha) por pouco que me metia em algo pior que uma aula de trabalhos manuais. Um "façam lá isto, é fácil, só precisam de arame, e mais isto, e aquilo, e aqueloutro, e com um bocado de azar também agulha e linha para tornar as coisas ainda mais complicadas". Eu já estava a ver a vidinha a andar para trás, agora sem professores para me darem a pior nota de sempre, quando alguém, com certeza com o mesmo terror que eu, nos safou a todos. Eu faço muitas coisas bem com as mãos, por exemplo  escrever no computador, mas trabalhos manuais é que nem pensar. Felizmente há quem faça as coisas por nós, e as venda por preços que, sinceramente, me parecem equivalentes ao custo do material. Gente dotada de mãozinhas de ouro, parabéns, mas alguns de nós não nasceram assim prendados.

03 junho 2014

E a boa notícia do dia

Na segunda é feriado. Fim de semana prolongado, yay. A minha semana, de repente, tornou-se espetacular.

Da liberdade

Tenho uma regra de ouro, não discutir com gente estúpida. É aquela coisa do arrastarem-te até ao nível deles e ganharem-te por terem muita experiência.
Ainda assim, hoje encontrei um anormal que andava a evitar há anos. E quando ele se saiu com uma asneira, não pude ficar calada. Se ninguém diz nada, e eu estou ali, vai ouvir, nem que seja só para que fique a saber que há mais opiniões. É aquela coisa de a liberdade dos outros terminar onde a minha começa (e vice-versa), que nos ensinam na escola, mas pelos vistos não faz parte do programa noutros países. Parece-me que o homem não é estúpido - o desfecho teria sido diferente. Mas, apre, que a intolerância, com muita missinha em cima, é difícil de aturar.

30 maio 2014

O paraíso também é isto

(da série "o interior esquecido e ostracizado")

Sair à rua à hora do almoço, atravessar a "cidade" a pé. Poucos carros, ouve-se bem a gente nas conversas no meio da rua, todos se cumprimentam. Mais à frente uns homens falam sobre um outro, alguns palavrões a colorir a linguagem. Tenho uma teoria que ando a testar, de qualquer rua dá sempre para ver os montes. Azuis, os montes são azuis ao longe, e há muito monte por onde escolher.
O jardim - é "o jardim", não um jardim - está cheio de flores, sente-se o aroma ao passar, e só depois se repara nas flores. O jardim tem muito mais área cimentada que jardim propriamente dito, mas tem bancos, e há sempre quem aproveite para se sentar um bocadinho.
As lojas fecham daqui a bocadinho, para todos almoçarem, reabrem pelas duas e meia. Antigamente só os cafés e os restaurantes ficavam abertos ao meio dia, hoje em dia fazem-lhes companhia as lojas chinesas que vieram substituir a loja dos trezentos, e o supermercados das cadeias nacionais. E a farmácia de serviço.
Queria atravessar a rua, mas o semáforo está vermelho e um GNR mesmo colado a ele. É melhor esperar, embora o sinta como a coisa errada a fazer. Aquele cruzamento não devia ter semáforos, umas passadeiras e um sinal de stop, como havia dantes, serviam bem e não gastavam electricidade. Um ou outro carro vão passando, deslocados, perdidos, surpreendidos pelos sinais de controlo.
Quase só se ouve gente e pássaros. Nos ninhos, os jovens passarinhos chamam pelos pais, para que não se esqueçam de lhes trazer que comer.
Depois do almoço, dorme-se a sesta.

23 maio 2014

Podcasts

Deve haver podcasts há uns 10 anos, mais coisa menos coisa. Nunca atinei com eles, os de áudio, tenho dificuldades em concentrar-me no som quando estou no computador, e nunca aderi aos produtos da maçã. Até que chegou o dia. Com os telefones inteligentes, de repente passei a ter um pequeno computador nas mãos a toda a hora, com acesso à net permanente (viva a flat rate), e inúmeras possibilidades à distância da imaginação - ou da pesquisa nos tops da loja de apps.
Nas últimas férias na pátria, andava eu sem telefone esperto mas de rádio ligado, a apanhar os bocadinhos cómicos das rádios todas, e ouço alguém a dizer que de manhã estava sempre a mudar de rádio para apanhar as rubricas todas. Aquelas do homem que mordeu o cão, mixórdia de temáticas, nilton, e os outros rapazes que já não me lembro o nome. E depois, não sei bem porque motivo, cheguei a casa, e lembrei-me que isto dos podcasts era engraçado, se desse para ouvir estes bocadinhos de rádio, à hora que me desse jeito, tantos quantos fosse possível ouvir enquanto tivesse tempo livre. Instalei tudo, mandei o telefone fazer downloads, e manter a lista do que já ouvi, que o tempo é curto para repetições, e agora os podcasts acompanham-me a fazer as coisas mais estranhas. No carro, no ginásio, nos tempos mortos. Só me falta lembrar-me de andar com os auscultadores para a lista dos não ouvidos diminuir, em vez de aumentar. Há quem ouça música enquanto corre. Eu ouço podcasts no ginásio.

20 maio 2014

Newsletter

A educadora bem intencionada manda dois ou três emails por mês a contar o plano para as semanas seguintes. Se vão falar de animais, ou fazer experiências com ovos, se vão dar um passeio e é necessário levar lanche. A mensagem vem sempre em Word. Encriptada numa fonte qualquer, daquelas que imitam a letra manuscrita, até na ilegibilidade. Podia ser wingdings que ia dar ao mesmo. Um ano lectivo disto. De todas as vezes, antes de conseguir ler os documentos, tive que mudar para Arial. Porque é que ninguém lhe diz?


(Eu sei, eu sei, podia ser eu... mas só a vejo logo de manhã e ainda vou a dormir, a essa hora não sou capaz de pensar em nada. A não ser em como estava quentinha no vale dos lençóis.)

Não sou uma rapariga da cidade

Não sendo uma rapariga da aldeia - não sou amiga da bicharada, e as plantas não se dão bem comigo - descubro, ao fim de tantos anos, que também não sou uma rapariga da cidade.
Hoje esteve um dia de sol. Um dia quente, quase verão, t-shirt e saia, miúdas de calções, pernas ao léu. Munique inteira saiu à rua, em êxtase, e também com medo que isto dure pouco, já que terminou agora mesmo mais de uma semana de tempo cinzento e frio. Munique tem 1,4 milhões de habitantes. E muitos turistas - prato do dia: irlandeses, austríacos, e mix de asiáticos. Todos na rua, ao mesmo tempo. Sendo Munique uma cidade com uma área relativamente grande, ainda assim, isto dá muita gente por metro quadrado. Muita gente a atropelar-se na fila para os gelados (a sério, e nem faz sentido, os gelados são bons nas gelatarias quase todas). As esplanadas cheias. O rio, ou melhor, a praia de seixos ao longo do rio, também.
Falta-me a paz e sossego. Chego ao fim do dia de trabalho cansada, e já não me apetece fazer nada. Os dias são curtos, e há sempre alguém a querer alguma coisa. Podia dizer que preciso de férias, mas o que eu queria mesmo é de uma densidade populacional inferior a 100 habitantes por quilómetro quadrado.

18 maio 2014

Às vezes é preciso ostracizar a família

Apanhei a minha mãe ao telefone, para me dar os parabéns. O meu pai, que andava perto mas não o suficiente para eu ouvir, ia metendo a sua colherada à distância, e perguntava se eu já sabia o que é a minha prenda. Prenda essa que só vou ter nas mãos daqui a uns dias.
Há pessoas que gostam de surpresas. E há o meu pai, que não só abomina surpresas, mas também não consegue conceber que se surpreenda alguém, em tempo algum. E eu, embora não seja a maior fã de surpresas, gosto de só saber o que são as minhas prendas quando as tenho na mão, depois de as desembrulhar.Vou ter que evitar o meu pai até esse momento. E arranjar uns tampões para os ouvidos para os últimos minutos.

Dos miúdos

As primeiras palavras são uma fofura.
Quando eles começam a conhecer os números, genial.
A identificação das letras e as primeiras palavras escritas, um ponto alto.
Aprendem a escrever o nome, maravilha.
Vão para a escola, que grandes.
E depois uma sucessão de coisas mais ou menos ao mesmo nível, intercaladas com um e outro momento genial, que é quando vamos descobrindo a que é que eles são mesmo bons, até ao dia. Aquele que, não sei bem porquê, nunca me tinha apercebido que um dia, com certeza, iria chegar. O momento alto na vida de uma mãe geek.
O dia em que nos sentamos à mesa a discutir programação. De software.
(O puto escreveu - codificou - um jogo. Daqueles básicos e viciantes. Precisava de ajuda com a lista dos highscores. Tanta baba...)

11 maio 2014

Trava-língua

Na estação central de Munique, encontro o meu maior problema linguístico desde que me mudei para esta cidade. Para enquadrar a minha dificuldade, devo dizer que, apesar de viver na Alemanha, a língua que eu falo 90% do tempo é inglês. Depois vem o português e só depois o alemão.
Em Hauptbanhof há um quiosque "Brioche Dorée"(imagem aqui). Ora, o brioche dourado é uma cadeia, que se encontra por França - e desde há algum tempo em Munique, na estação central, também - que vende produtos de pastelaria/padaria/café. Tem algumas coisas de que eu gosto muito: macarrons, brioches, croissants, pain au chocolat, tartes de morango e tarte de limão merengada. Assim de repente, é o que me lembro que tem de melhor. Ora, a primeira vez na vida que eu entrei num Brioche Dorée foi em França - nem me lembro o que é que andava lá a fazer, se turismo, se trabalho, se qualquer outra coisa. E entrei em vários, onde comi bolos, pão, croissants. De todas as vezes, antes de passar pela porta, ensaiava mentalmente o diálogo. O que é que vou querer hoje? "Bonjour. Je voudrais une tarte aux fraises." "Je voudrais deux brioches." "Merci. Bonne journée, au revoir." Coisas assim, melhor ou pior, com mais ou menos erros, mas o importante era que eu ia conseguir comer exactamente aquilo que queria.
Chegamos a Hauptbanhof. Da primeira vez que vi que havia um brioche dourado na estação central, embora em versão quiosque em vez do café, o meu estômago saltou de contente. Brioches! Croissants! Macarrons! Fui logo ver o que tinha na montra, debatendo comigo própria por uns minuto o que é que eu ia experimentar, para começar. E em chegando ao momento de abrir a boca e falar, para pedir o que eu queria, só me saía francês. Pois estando ali todas as etiquetas à minha frente a gritar "tarte aux fraises", "macarrons pistache", "macarrons chocolat", "tarte au citron", como é que eu podia dizer "Ich hätte gern eine tarte aux fraises."? Pura e simplesmente, não saía. Pior, eu começo a fazer o meu pedido em francês, e o empregado não percebia nadinha. O que é irónico, afinal de contas, ele tinha as etiquetas com os nomes à frente dele o dia todo. Mas nada, lá tive que convencer os meus neurónios a trocar para alemão, pelo menos um bocadinho, e, com muito esforço, lá consegui.
Isto foi há alguns meses, pouco mais de um ano. Entretanto, por mais tempo que passe, de cada vez que vou ao Brioche Dorée já sei que me vou debater com as línguas. Por mais que me esforce, qualquer diálogo que não tenha sido previamente ensaiado em alemão na minha cabeça, vai sair em francês. Pelo menos, entretanto, os funcionários já dominam o "oui". E riem-se, quando lhes explico que isto de encomendar em alemão comida francesa, é mesmo difícil para mim.

04 maio 2014

Não gosto nada de planear esta parte das viagens

Naquela meia hora que intercede verificar preços de bilhetes de avião para determinadas datas, ver se bate tudo certo para toda a gente chegar ao mesmo sítio no mesmo dia, da maneira mais poupadinha possível (como se poupar se conjugasse com viagens de avião), o preço de todos os troços aumenta entre 10 e 100%.  Nem a limpar o histório, mudar de browser ou de computador a coisa melhorou, ou agora o aumento de preço na segunda tentativa está indexada ao IP, ou simplesmente só havia um ou dois bilhetes àqueles preços e entretanto alguém os comprou. O stress que isto dá, méne. Agora vou precisar de umas semanas para recuperar do choque, para depois planear tudo o resto. Que os bilhetes são só o primeiro passo.

Uma pessoa pensa que à medida que os putos crescem a coisa se vai simplificando, mas na verdade, enquanto umas partes se tornam extremamente simples, outras partes vão-se tornando extremamente complicadas.

30 abril 2014

É uma questão de vida

Cheguei a casa, depois do trabalho, estafada mas com alguma energia ainda, certamente devida ao sol que voltou a aparecer depois de vários dias cinzentos. Por causa do sol, lembrei-me de abrir as janelas para arejar a casa. Felizmente reparei a tempo nas melgas gigantes do lado de fora. Antes abafada que picada.
Fica para amanhã, antes do fim do dia que é a hora dos mosquitos. Sendo feriado, a janela de oportunidade tem uma folga imensa.

Dúvidas existenciais

Relativas à existência das minhas orquídeas, nada mais, nunca tive mais nenhuma planta que desse flor e não me morresse em menos de quinze dias, quanto mais durar anos e anos e anos e até reproduzir-se, as orquídeas adoram-me e eu nem percebo porquê.
A dúvida é, se alguém souber a resposta, ora se as orquídeas normalmente se dão em cascas de pinheiro, posso ir ali ao pinheiro mais próximo tirar um bocado de casca para acrescentar aos vasos das orquídeas? Ou será que assim que as raízes entrarem em contacto com o pinheiro estranho, elas se irão suicidar?

Eu podia perguntar à minha mãe, mas ela é o oposto de mim, com ela todas as flores se dão bem, excepto as orquídeas.

Isto só a mim

Tenho uma receita de bolo de cenoura para experimentar há séculos (obrigada, Rita!).
Hoje vi uma de lemon berry swirl cheesecake que também tenho que fazer em breve - uma colega fez e eu não cheguei a tempo de provar, mas sei que foi um sucesso e a receita tem muito bom ar.

As minhas cobaias estão todas a dieta. E são gajos! O que é que se passa com esta malta? Voluntários para comer bolo em Munique? Estou quase a fazer anos e quero comer bolo, mas só consigo comer uma ou duas fatias por dia...

18 abril 2014

EDO*

(título roubado à Wallis)

Antes era esquecido e ostracizado, mas agora parece-me que já só é ostracizado. Os geradores eólicos a lixar a paisagem toda, a juntar aos postes de electricidade - nunca tinha reparado na quantidade de postes de electricidade que há pelos montes fora, bem sei que é assim que transportamos a electricidade das barragens limpas e ecológicas para o resto do país, mas caramba, será que era mesmo necessário tantos postes gigantes e cabos de diâmetro com potencial para estragar qualquer fotografia. Os tractores fazem barulho de dia, de noite são os cães, que o meu receio de cães vem destas matilhas de cães sem dono, cães sem raça arraçados de lobos, mais os cães de guarda que mordem a quem lhes dá de comer, quanto mais a quem nem conhecem. Comunicam uns com os outros à noite, os cães, têm conversas à distância, ouvem-se a centenas de metros uns dos outros.
As maravilhas outrora desconhecidas agora aparecem na televisão como se fossem a melhor coisa desde sempre, e são invadidas por gente que fala de maneira esquisita e anda pelos caminhos do circuito de manutenção que antigamente era um eufemismo para "fizemos um trilho à volta da barragem a ver se cola, mas ninguém liga nenhuma" e hoje em dia é o grande objectivo da malta que faz 200 quilómetros de carro para chegar ao interior esquecido e depois salta do jipe com botas de caminhada e vai dar um passeio. Ouvem-se as suas conversas a umas largas dezenas de metros, alto e bom som, esta malta não percebe que sem paredes a voz se propaga e toda a gente fica a saber as fofoquices, mesmo que não queira.
Gelados só no tempo deles, lá para fim de Junho, mesmo que estejam 27 graus (real feel 30ºC) e vento quente, mas nas tascas há sumol, cerveja e até ice tea e fanta, apesar de lá dentro cheirar a lareira e a madeira queimada, às tantas andaram a fazer alguma coisa com porco, eu pensava que a época disso era lá para Novembro, mas eu não sou bem uma rapariga da aldeia, nunca vi a matança do porco, só ouvi uma vez e fiquei para nunca mais - coitado do porco, guinchava que se desunhava, e continuou a guinchar por horas, pelo menos pareceram horas. Já não sei como são as tascas, mas ao fim da tarde há meia dúzia de gatos pingados - nem tanto - que as frequentam, café ao balcão, cerveja na esplanada - se é que se pode chamar esplanada a 3 mesas em frente à porta. Há uns anos provavelmente ninguém bebia a cerveja na rua, mas nem as tascas escapam à lei do tabaco, e os homens rudes do campo também são forçados a fumar lá fora. Levam a cerveja com eles. Numa das mesas ficou um papel, com tracinhos e bolinhas, sinal que houve ali jogatana mais cedo. Depois do almoço, talvez. A tasca tem um cão, sem trela, que não dá confiança a ninguém, por vezes porta-se como um gato.
O rio continua no sítio, com corrente forte, sinal de que choveu, bicharada de todo o tamanho e feitio, aranhões de água, peixinhos, cobras, rãs a apanhar sol e aos saltos para a água, formigas gigantes, abelhas, zangões, vespas e moscardos, e as plantas que lhe dão aquele cheiro que só há ali, a verão e calor do meu. Estão a fazer uma ponte nova e nem assim passa por ali ninguém, um camião das obras de vez em quando, em terminando a construção com certeza haverá meia dúzia de carros por dia a a travessá-la, mas dizem-me que tinham que fazer uma nova, que a velha está quase a cair e era perigoso mantê-la. Preferia que tivessem restaurado a ponte velha, mas não se faz disso por cá, que desde os anos 80 que o que os políticos querem é betão em todo o lado, e as pontes antigas levavam muita pedra e isso não pode ser. Deve ser por causa do amor ao betão que temos aqueles geradores eólicos horríveis, aquele cinzento todo deve levar muito cimento. Betão e alcatrão, agora há para aí umas estradas (às moscas, óptimas para quem gosta de conduzir) que rasgam literalmente a paisagem, os campos, os montes, e se vêem ao longe. Deve ser o progresso, mas para a gente que por cá anda, cada vez menos, para os serviços públicos que vão desaparecendo - para dar lugar aos mesmos serviços fornecidos por privados, pois que os serviços fazem falta - é difícil encontrar áreas que ainda não tenham sido corrompidas pelo homem. Nem falo da agricultura, só de que gostava de ainda encontrar alguns sítios onde as estradas não poluíssem visualmente a paisagem, nem cabos eléctricos, nem postes, nem geradores eólicos. Não é fácil. Mais fácil é sentar-me num ermo e não ver ninguém durante horas, porque a verdade é que o interior é esquecido por isso mesmo, tem pouca gente, e a que tem também tem tendência a concentrar-se em cidades.
Vai haver morangos em breve, há imensas tiras de plástico preto a cobrir filas de morangueiros nos campos. Cerejeiras crescem à beira da estrada, como se tivessem nascido ali por acaso, consequência talvez de caroços atirados por quem passa. Lindas. Haverá cerejas em Junho, as primeiras, daquelas que vendem ainda com o pauzinho e às vezes as folhas.
Estamos em Abril e é quase Verão. Ainda agora cheguei e estou quase a ir embora.

07 abril 2014

Os animais são nossos amigos

Há uns dias, estava sozinha em casa, saio pela porta , e momentos depois, atrás de mim, sai um tigre gato. Eu não tenho animais de estimação, não abro a porta aos monstros gatos dos vizinhos, e não faço a menor ideia de onde é que aquele gatarrão saiu, ou melhor, entrou, para depois voltar a sair. Só sei que quando o vi, apanhei um susto - os gatos da vizinhança têm o triplo do tamanho de um gato normal, não sei se é da espécie se é da comida que lhes dão - dei um gritinho, e olhei-o nos olhos. O gato olhou para mim com ar de quem sabia muito bem que tinha feito asneira, hesitou por um instante com medo de apanhar, e fugiu. Por uns momentos fiquei um bocado atarantada - o meu lar tinha sido violado por um intruso. Depois, procurei por vestígios do animal, não encontrei nada, acalmei. Foi só um gato, um felino do tamanho de um monstrinho, mas apenas um gato.
Quando contei ao doglover cá de casa, arrependi-me imediatamente. A proposta foi de arranjar um cão. Eu não sou muito amiga de cães, quando era pequena tive uma má experiência, e, apesar de eles me adorarem (devo cheirar a comida de cão, só pode), eu prefiro uma distância mínima. Digamos que não me agrada ter um focinho molhado a tocar-me nas pernas. E, acima de tudo, nunca poderia ter um cão a mandar em mim. A obrigar-me a ir à rua, mesmo que me apeteça ficar fechada em casa durante dias, ou esteja a chover, ou frio, ou calor, ou vento. Cada vez que o assunto cão é mencionado, só me vem à cabeça uma piada do Seinfeld: se os extraterrestres viessem à terra, pensariam que quem manda são os cães. Os humanos andam atrás dos cães e apanham a porcaria que os cães fazem. Certamente que o ser vivo mais inteligente é o cão. Os extraterrestres diriam ao primeiro cão que encontrassem, "leva-me ao teu líder".
Bem, pelo lado positivo, se quisessem testar alguém em laboratório provavelmente levariam um cão. Se calhar não é tão má ideia assim.

03 abril 2014

Chegou!



Há quem aprecie as temperaturas agradáveis, o bom tempo, o céu azul, e se alegre com o início da Primavera.
Eu olho para estas flores todas e esfrego os olhos. Chegaram as alergias.

Doutor Infante

Ia ao médico do costume, pensava eu. Cheguei lá, e aparece-me um rapazote com idade para ser o meu irmão mais novo, a dizer que o meu médico se ia reformar, e como lá para o fim do ano ele - o rapazito - iria tomar conta do consultório, ia aproveitando para dar umas consultas e se dar a conhecer aos pacientes. Fiquei em choque. Então, mas eu ia àquele médico porque tinha idade para ser meu avô (vá, entre pai e avô). Eu gostava daquele consultório porque estava cheio de velhotes, daqueles que apareciam religiosamente todos os dias pela fresquinha para fazer análises. Eu estava convencida que o motivo pelo qual aquele consultório não fechava era a confiança que os velhotes tinham no senhor doutor avozinho, com anos de experiência e sabedoria da que não vem nos livros, que os ouvia e respondia às suas dúvidas, e que só estava aberto de manhã, porque de tarde os velhotes não precisam de consultas, as tardes são para cafés e bolos. Agora o consultório funciona ao dobro da velocidade, até que o médico mais velho se reforme, no fim do ano. A sala de espera está às moscas, até as análises devem ser despachadas ao dobro da velocidade. O rapaz, filho de outro médico, idade para ser meu irmão mais novo, vai ser um bom médico, com certeza. O que mais lhe vai custar vai ser ganhar a confiança dos velhotes.