25 março 2014

Novos passageiros

(Isto nunca tinha visto. )
Porta de embarque no aeroporto de Frankfurt.  Um rato, vindo não sei de onde,  atravessa a zona de espera a grande velocidade. Provavelmente vai apanhar o mesmo vôo.

23 março 2014

Memórias de uma cozinha

Há muitos anos atrás - há várias vidas atrás - vivi num apartamento algo peculiar. Era um bom apartamento, espaçoso, luminoso, tinha sido recentemente renovado, tudo nele gritava "novo começo". Trouxe as minhas tralhas todas quando me mudei, que não eram muitas, espalhei-as pela casa por forma a parecer mais ocupada do que realmente estava, e em breve descobri o problema. A cozinha, gira, com focos de halogénio que eu achava o máximo (nunca tinha tido nada do género), azulejos brancos que ainda tinham pó aquando da mudança, espaço para refeições - o que no Porto era uma raridade - lavandaria (marquise, vá), equipada, o que me dava imenso jeito porque não podia estar a investir numa cozinha, tinha um problema relativamente grave. Não era o facto de o isolamento não ser grande coisa e mesmo com a marquise fechada e a porta de acesso fechada ainda assim entrar ar pelas frestas, pelo que no inverno estava sempre um bocado frio. Era o fogão. O senhorio tinha posto um fogão a gás, novo, que, por sorte, tinha um disco eléctrico. Ora isto em si não teria nada de especial, se o fogão funcionasse. No entanto, o artista que se lembrou de pôr ali um fogão a gás não reparou que o dito estava preparado para ligação a gás natural (quer era uma novidade na altura) e não tinha possibilidade de ser ligado a gás de botija. E o prédio não tinha gás natural.
O tempo todo que vivi naquela casa, especializei-me em cozinhar fosse o que fosse recorrendo a uma panela, e um microondas. Também não tinha forno. Carne estufada (vaca, perú ou frango) com acompanhamento de legumes (cenoura, ervilhas, feijão verde, tomate) e hidratos de carbono (arroz, batata ou massa). Parecendo que não, isto dava uma data de variações da mesma coisa. Não me lembro como, mas sei que também fazia douradinhos com arroz (provavelmente arroz de sobras aquecido no microondas e douradinhos no disco eléctrico). E atum com salada russa ou salada de grão de bico. De sobremesa havia fruta, pois, ou salada de frutas, ou iogurtes. Só na vida seguinte comecei a fazer bolos e outros doces. Às vezes, também fazia sopa - podia fazer a sopa primeiro e depois usar o disco para o que mais viesse, ou simplesmente fazer sopa quando já tivesse para jantar sobras de outra refeição.

Tantos anos depois, sempre que faço "tudo numa panela" lembro-me daquele apartamento. Do cheiro a renovação, do início de uma vida nova. Dentro de tantas limitações que tinha, o tanto de bom que tive ali. O sol a bater-me na cara ao acordar todas as manhãs, causando-me uma boa disposição irritante. Dos jantares com os amigos, os sofás insufláveis do clix.pt (eu tinha lá dinheiro para um sofá a sério) o ventilador e uma mantinha. O jogo do astérix no computador com o puto, com joysticks que eram uma porcaria e que tinham que ser periodicamente abertos para reposicionar os contactos de metal com fita cola. A vez que meti gasóleo no carro a gasolina - a tragédia - a caminho do aeroporto para ir buscar um dinamarquês que nos trouxe os melhores bombons de sempre. Os meses que esticavam para lá do dinheiro, a ginástica financeira que fiz enquanto vivi ali. O puto a pedir um Winnie Pooh grande, e eu a ter que lhe explicar que não tinha dinheiro para lho comprar, e ele que nunca fazia cenas, lágrimas a escorrer pela cara abaixo.
A vizinhança, não muito recomendável, apesar da avenida larga e o colégio "bem" mesmo ali ao lado. O assalto ao meu carro uma noite, o estrago na porta, nada roubado. A cena de faca e alguidar, da vez que os vizinhos andaram à pancada e a polícia teve que intervir. A vizinha que ficou com o dinheiro do condomínio e nem passou recibo nem entregou o dinheiro. Soube mais tarde que tinha problemas financeiros. Teríamos todos, possivelmente.
Os dias de sol. Tantos dias de sol, e como tudo resplandecia durante o dia, a árvore do pátio, o passeio, o sorriso do puto. A outra vizinha, que se ofereceu para tomar conta dele se algum dia precisasse - nunca pedi, não tinha forças para tanto.

Hoje pedi a uma amiga para usar o forno dela. Fiz bolos, ela fez-me o jantar. Ela ficou felicíssima por poder ajudar. Eu ainda estou a aprender a aceitar. Há umas vidas atrás, não teria sido capaz sequer de pedir ajuda.

E por falar em póneis

Este vídeo é genial. Acho que não é o original, embora parecido. O original era um anúncio a uma operadora de telecomunicações.

Um pónei a fazer o moonwalking... :-) Reparem no pormenor à ovelha Choné: no instante que passa o tractor, o pónei pára.


21 março 2014

Cavalos anões

Quatro destes, num espaço que eu diria apropriado para um cão de médio porte. Pois são póneis, cavalitos minúsculos, sendo que o mais alto não devia ter um metro e meio de altura, não devem precisar de muito espaço, e o que tinham até dava para se rebolarem, que eu vi, e até para andarem às marradas uns aos outros, que é como quem diz, o maior aos mais pequenos, que isto do reino animal é mesmo assim e o maior é que manda, e impõe as regras à força. Provavelmente vão passear todos os dias, e têm um celeiro onde ficam quando chove e tal, mas mesmo assim fiquei com pena deles. Ali mesmo ao lado dos campos verdejantes, podiam deixá-los ir lá estrumar directamente (hoje fiquei traumatizada, e eu até sou uma rapariga do campo). Tinham uma casota, assim uma daquelas casotas de jardim em grande, mas da maneira que se portavam, a casa era do maior, e ainda assim, uma casota não é lugar para póneis. Engraçaditos e tal, para observar por uns minutos, provavelmente bons para crianças, mas para gente grande, não me parece que tenham grande serventia nos dias de hoje.

Fez-me  lembrar um episódio dos Simpsons em que a Lisa quer à viva força ter um pónei. Concedo que realmente cabem num jardim, e arrependo-me de não ter perguntado quanta comida comem por dia, só por curiosidade que eu não tenho vida compatível com ter animais. Mas estes moram perto da estrada panorâmica em direcção aos Alpes, mesmo ao lado de uma tasca maravilhosa, como que uma taberna à antiga que serve de mercearia, de talho e de fast-food (a sande de schnitzel estava maravilhosa), e até tem Biergarten e tudo. Claro que o Biergarten é à escala dos póneis, ou seja, 3 ou 4 mesas e bancos corridos, em puro estilo bávaro, mas estava vazio e os clientes que entravam e saíam cumprimentavam toda a gente. Mesmo os motoqueiros. Sendo assim, é provável que volte a visitá-los, e eventualmente a perguntar sobre os hábitos destas criaturas, embora corra o risco de não entender as respostas, que isto é longe da cidade cosmopolita e como tal não se fala alemão, mas um dialecto quase incompreensível. Se calhar com tempo, aprende-se.

(Eu não sei bem como ou porquê, mas no campo as casas são enormes, gigantescas, dão para a família toda incluindo avós e netos, bed and breakfast e animais no rés do chão ou num celeiro ao lado. Impressionante.)



Ai, o cheiro da Primavera

Um dia de sol maravilhoso, os montes verdejantes, os Alpes no horizonte, o céu azul. O campo, os tractores, as casas enormes, as vistas. Absolutamente paradisíaco, não fosse o cheiro a estrume.

19 março 2014

Como fazer um bolo sem forno

Ora aí esta uma questão que nunca me tinha ocorrido. Infelizmente tenho que encontrar a resposta rapidamente. Tenho uma festa de miúdos à porta e o forno avariou.
Para já só consigo pensar em:
Bolo de panquecas - feito de panquecas empilhadas, coladas por creme à escolha (chocolate, ou queijo creme aromatizado)
Bolo de bolacha - alguma versão alterada sem o café - mas como é que um bolo de bolacha poderá funcionar sem café?
Queques de chocolate de microondas - não é propriamente um bolo, mas serve...

Podia ir a uma pastelaria e encomendar. Mas isso era fugir ao desafio. Há-de haver maneira de fazer bolos sem utilizar o forno.

Cheesecake!

13 março 2014

Sabes que já não vais a Portugal há imenso demasiado tempo quando...

Não chegou a haver Inverno a sério. A primavera aproxima-se a passos largos e já não há razão nenhuma para usar botas altas. Quinze ou dezasseis graus durante o dia já não são (apenas) uma agradável surpresa, são uma constante, e como tal, está na hora de mudar de calçado. Infelizmente, o calçado de primavera precisa de um sapateiro habilidoso, ou substituição urgente. Passo as noites a surfar a net a ver montras virtuais, mas o que eu queria mesmo era ir à minha sapataria, e ao meu sapateiro.
Tive que cortar o cabelo cá. Estou que nem posso, cada vez que me olho ao espelho penso na minha cabeleireira, a quem tenho que ser infiel mais vezes do que gostaria. Quanto tempo é que demorará a passar o efeito deste corte esquisito que à frente ficou demasiado curto e direito. A tortura que é encontrar uma cabeleireira nova que faça um corte que me agrade, já corri não sei quantas em Munique e ainda não acertei.
Apesar do Inverno ter sido muito ameno, tenho saudades do sol e do céu azul. É difícil explicar, porque tem estado imenso sol, mas não é a mesma coisa. Estou com saudades de "casa".

Não é justo

Almocei uma das minhas comidas favoritas. Apanhei uma intoxicação alimentar. Leve, não fui parar ao hospital.

11 março 2014

Platão, esse grande homem

Tenho uma paixão assolapada pelos escritos de um homem. Não, não estou a falar de Platão, é outro, um cujo coração ainda bate. Ora, estando apaixonada pela inteligência e sentido de humor combinados, capacidade de análise e eloquência, da expressão escrita deste ser humano, confronto-me de vez em quando com a dúvida: ver ou não ver. Assistir de camarote, ou simplesmente continuar a acompanhar apenas a palavra escrita, sem nunca deturpar a imagem imaginada pela minha cabeça. Que não é sequer uma imagem. Para mim o homem não é gordo, nem magro, nem alto, nem baixo, nem bonito nem feio, embora provavelmente tenha barba. É mais provável que um homem eloquente e inteligente tenha barba, quanto mais não seja para não perder tempo a fazê-la, que os escritos não se auto-produzem.
Claro que se me atrever a conhecer esta musa inspiradora - pois, eu sei, é grave - o maior risco que corro não é a decepção de descobrir que mesmo uma pessoa inteligente, eloquente, e com um sentido de humor fora do comum, é apenas um mero mortal. Ou a surpresa de o homem ser isto tudo e muito mais, e ficar viciada na observação de um génio em acção. O risco é nunca mais voltar a olhar para aqueles textos com os mesmos olhos.

09 março 2014

Eu sei que há livros e tal

A televisão não dá nada de jeito. Tantos canais e não há nada que se aproveite.Não gosto de filmes, e os canais onde costumava seguir séries, passaram a dar só filmes à noite. Estou farta de programas de culinária - principalmente daqueles em que nem sequer cozinham nada que eu comesse. Há bocado estava a dar um sobre doces - bolos e assim - que não só era culturalmente terrível, era nutricionalmente péssimo, para lá de mau. (Suponho que fazer bolos sem bater claras em castelo e usar quantidades de manteiga que ultrapassam um pacote por bolo, antes de sequer chegar às "coberturas" desclassifica, aos meus olhos, qualquer bolo.)
Os canais de documentários deviam ter algo como um bbc vida selvagem para eu adormecer, e as séries pseudo-cómicas deviam dispensar os risos entalados que me perturbam a paz. De modos que acabo, com os miúdos na cama e portanto sem desculpa plausível, a ver os desenhos animados. Do cartoon network que é o único que não tem publicidade (vá, tem, mas muito pouca), e não aumenta o som durante o intervalo, que é algo para acordar a minha pessoa. E infelizmente deixou de transmitir apenas em inglês - alguns personagens ficaram com umas vozes esganiçadas que também não funcionam como soporífero. Há quem vá dormir para a cama por mais cedo que seja, mas eu estou convencida que perco a nacionalidade se me for deitar antes da meia-noite, e prefiro dormir um bocadinho no sofá.

28 fevereiro 2014

Para quem gosta de séries que não encaixam na fórmula de sempre

Veio parar cá a casa uma série de DVDs intitulada "Black Mirror". Esquisita qb, intrigante, estranha. Não é holywood, é mais sci-fi relativamente plausível, que nos deixa a pensar. Não se antecipa facilmente o que irá acontecer a seguir, e depois de ver as duas séries, quer-se mais. Muito bom. Vejam os bocadinhos que estão no youtube, vale a pena.

27 fevereiro 2014

Não encontrando o cão, caçando com gato

Segunda procurei desesperadamente um relógio de pulso analógico. Encontrei alguns guardados numa gaveta - ofertas ao longo dos anos, os mais recentes do ano passado. Nenhum deles tinha pilhas. Precisava de poder ver as horas num relógio de pulso. Analógico. Não tinha como. Estou habituada a não usar relógio. Desde que trabalho que ou vejo as horas no computador, ou no telefone, se estiver num local sem computador ou telefone provavelmente há um relógio de parede que eu possa consultar. E no fundo, a maior parte do tempo não preciso de saber que horas são.
Fui à gaveta dos monos, no meu cérebro, onde guardo informações relativamente inúteis mas que nunca se sabe quando poderei voltar a precisar delas. Encontrei o "algoritmo para saber as horas" desenvolvido quando andava na faculdade, precisava de saber as horas muitas vezes ao dia - para chegar aos sítios convenientemente atrasada ou simplesmente para saber quanto mais tinha que aguentar até a aula acabar - e o meu relógio avariou. Na altura só tinha um. Desenvolvi uma especial habilidade para espreitar o relógio de pulso do humano mais próximo, e um sexto sentido para identificar relógios de parede e outros relógios de maior ou menor dimensão em locais públicos, e ainda a aptidão para rapidamente me aperceber das horas através de reflexos em superfícies espelhadas.
Munida do algoritmo, relaxei. Podia não ter um relógio de pulso (analógico), mas havia de me desenrascar. E lá consegui, relógios de pulso dos vizinhos mais próximos devidamente identificados para utilização futura, todos os relógios de parede visíveis referenciados, e no fim até consegui acordar utilizando apenas o meu relógio interno, uns minutos antes do alarme tocar. Que o meu relógio interno funciona, mas nunca fiando.
Assim que deixei de precisar do relógio de pulso analógico, voltei a por o "algoritmo para saber as horas" na gaveta das coisas relativamente inúteis. Mal terminei essa tarefa, encontrei um. A funcionar. Com pilhas. Giro. A rir-se de mim, ao pé do telefone. Sacana.

Livre Livre!

Acabou a maratona. Uma daquelas em que se correm 42 quilómetros e depois ainda faltam duas centenas de metros? Não, uma daquelas em que se escrevem  42 quilómetro e no fim se falha por faltarem duas centenas de metros.
Tenho um calo no dedo. Mas estou contente. Já posso arrumar as resmas de papel.

19 fevereiro 2014

O rio mais famoso do Egipto

Enquanto crescia, nunca vi a minha mãe fazer dieta. Ou preocupar-se com o peso. Aos 18 anos as minhas amigas achavam-me uma sortuda porque não precisava de fazer dietas (pesava 52 kilos), e eu achava que elas eram extra-terrestres por sequer pensarem em dietas - eu sabia lá o que era isso.

Eu nunca me apercebi que a minha mãe se preocupasse com a linha. E se calhar é por isso que nem sequer penso em dietas, gosto do meu corpo e de mim. Se podia perder uns quilitos? Podia. Mas também os podia ganhar. E desde que possa continuar a jogar futebol, e não tenha problemas de saúde, o que como não será nunca uma obsessão. Vejo gente à minha volta a fazer dietas de todos os tipos e nem sequer parecem contentes. Perdem peso, mas não ganham felicidade. Eu era lá capaz de comer tanta verdura. Eu é que algum dia passava, um dia que fosse, sem hidratos de carbono. Eu podia lá ser feliz a passar fome.

18 fevereiro 2014

A coisa mais romântica de sempre

Não inclui corações, a não ser os que batem dentro do coração, não inclui chocolate, nem flores, nem luz das velas, nem cenas nenhumas à filme.
A coisa mais romântica de sempre, para a pessoa menos romântica do mundo, é perguntar, perguntar, perguntar sempre, até que um dia a pergunta é feita a sério. Sim, percebemos que dessa vez é que é, pelas borboletas no estômago e o arrepio na espinha. E pronto.

10 fevereiro 2014

O Inverno do meu contentamento

Para quem gosta de neve, tem sido terrível. Nem frio, nem neve, pouquíssimas ocorrências de temperaturas negativas. Até agora tivemos passeios com neve uma vez. Uma maravilha para quem não gosta de ter que os limpar. Um desgosto para a malta com máquinas XPTO que limpam a neve do passeio em menos de um ai. Pergunto-me como será para os limpa-neves profissionais, se recebem por contrato independentemente da quantidade de trabalho que vierem a ter, ou se, pelo contrário, são contratados ad-hoc conforme as necessidades. Suponho que haja dos dois.
Nas estâncias de ski há alguma neve, muito à conta das máquinas que produzem neve artificial (blhéc), é melhor que nada. Nos picos há sempre neve, nem que esteja congelada ao ponto de parecer gelo, o que não é para todos.
Mas na cidade, tem sido o melhor Inverno de sempre. Alguns dias cinzentos, sim, alguns, poucos, dias de chuva, muitos dias de sol. Temperaturas quase sempre nos graus positivos, quase Primavera para esta zona. Nada daquela porcaria castanha em que se transforma a neve depois do manto branco inicial. (Ainda) nem tirei as camisolas mais quentes do armário, tenho andado sempre de t-shirt e casaco. E os gorros também têm ficado esquecidos na gaveta.
A cereja em cima do bolo seria poder aproveitar este Inverno tão ameno passando o máximo tempo possível fora de quatro paredes. Não se pode ter tudo, parece-me, mas também não me queixo, mesmo do lado de dentro da janela gosto de ver o sol e saber que posso ir lá fora sem congelar o nariz. E, em podendo escolher, prefiro trabalhar com o sol a bater-me na cara.

01 fevereiro 2014

Era uma corrida, sff

Às vezes olho para os corredores do meu local de trabalho, penso nas cadeiras com rodinhas, e começo a planear mentalmente uma corrida de cadeiras de escritório. Qual o melhor percurso, versão contra-relógio ou várias pistas alinhadas, volta ao andar completo, ou ainda uma versão avançada incluindo utilização de elevadores para aumentar a distância total a percorrer. Pares - um sentado, outro a empurrar -, estafeta, individual (dar ao pé).  E, claro, a que hora é se poderia fazer uma coisa destas. Depois a bolha faz pop, uma coisa destas só com autorização e não me parece que haja sentido de humor suficiente para deixar a malta descontrair desta maneira, tudo a voltar para as secretárias, cadeirinhas sossegaditas, podem girar mas não dêem muito uso às rodinhas para não gastar que o material é caro.
O meu vizinho entretanto anda a preparar uma partida relativamente inofensiva. Trocar o papel higiénico na casa de banho por um que não tem ponta e é impossível de rasgar (acho que é este aqui). Felizmente as casas de banho são antiquadas (homens para um lado, senhoras para outro), e como tal estou a salvo, mas agora que já pensei nisto melhor não sei se é uma partida engraçada ou de mau gosto. Alguém devia avisar a rapaziada para levar o jornal quando for usar a sanita.

30 janeiro 2014

Eu fui à praxe

Podia dizer que eu fui à praxe e sobrevivi, mas não é verdade.
Eu vi a "minha" praxe ao longe das primeiras vezes, e achei aquilo uma brincadeira divertidíssima, e depois também quis entrar. Eu era para não me ter lá ido meter, mas isso foi antes de saber como era na minha faculdade.
E as primeiras coisas que eram anunciadas aos caloiros era que ali não se ia pintar a cara a ninguém, nem fazer a malta andar de fraldas ou parvoíces dessas. Isso era para as outras praxes. A minha praxe foi uma festa. Pronto, nem tanto, teve tardes em que foi uma seca - um ou dois veteranos a falar durante muito tempo, e algumas coisas eram interessantes e outras menos- mas também teve tardes e noites de morrer a rir. Tive aulas fantasma - em que um dos mais velhos nos apareceu a fazer de professor e nos deu uma lista de bibliografia que nunca mais acabava (o Pisconov, o famoso livro de matemática, era seguido do Piscodez, obviamente - para quem não era caloiro - inventado). Rimo-nos muito, muitas vezes, eu se calhar mais do que os outros. Fizemos casco-paper, latada (com latas, e sem mais adereços), noitadas, sessões solenes, cantorias, jantaradas, almoços nas cantinas e nas tascas da cidade, e sim, fomos felizes juntos. O pessoal do segundo ano estava proibido de praxar - para não haver excessos - e a praxe mais organizada, dia sim dia sim durante muitas semanas, estava entregue a alguns alunos do terceiro ano. Os veteranos apareciam para fazer número, mandar bocas, discursar, ensinar algumas coisas pois. Em público, quando se praxava primeiro fazia-se uma parede de capas pretas, para que os estranhos não assistissem . Ok, dentro do possível. Mas ninguém foi mandado comer porcarias, ou teve que rastejar pelo chão. E os "doutores" levavam-nos às aulas. E depois iam-nos buscar. :o)
Nunca me senti obrigada a ir à praxe, e tive pena dos dias em que não pude ir. Nunca me senti maltratada, ou humilhada. E parcialmente terá sido porque era caloira, e as caloiras eram tratadas com mais cuidado, ninguém nos punha um dedo em cima. Vantagens da faculdade estar cheinha de homens. Se calhar a parte mais chocante da minha praxe foi a quantidade de asneiras que dissemos... mas eu sou transmontana, e na minha terra usa-se uma linguagem ainda mais colorida do que a que ouvi na praxe.
Havia um grupo de três colegas que nunca foram à praxe. E usaram traje, e foram ao cortejo e à queima. E não, não eram iguais aos outros. Não é que não tivessem amigos. Ninguém os tratava mal. Davam-se bem com um número menor de pessoas, penso que era aí que residia a maior diferença. Demoraram mais tempo a criar laços. Bom ou mau, não sei, eu até me dava com eles, mas não era como com os outros, com que tinha rido e partilhado horas e horas a fazer as mesmas coisas. Nunca, nos anos todos em que convivemos quase diariamente, aqueles três se tornaram tão próximos como alguns outros que estiveram na praxe comigo. Provavelmente foram dos poucos alunos do meu curso que não tiveram explicações de desenho técnico com um "doutor" que adorava a cadeira e ajudou praticamente todos os caloiros a compreender a matéria.
A minha melhor amiga de sempre conheci-a na praxe. Ficávamos uma ao lado da outra, literalmente e figurativamente, e assim continuamos, tantos anos depois, mesmo que em países diferentes.

Se a praxe é uma coisa boa? Para mim foi. O que é certo é que desde sempre que ouço relatos de coisas terríveis que aconteceram em praxes, e felizmente nunca tive uma experiência que se assemelhasse. Nem ao que aparece nos jornais, nem ao que se vê nas ruas. Nunca me pintaram a cara. Nunca me puseram um dedo em cima. Nunca me tentaram obrigar a fazer nada. O medo que eu tinha à praxe passou quando vi a praxe ao vivo na minha faculdade, e transformou-se num prazer. Sim, eu gostei da praxe. E porquê? Porque sou masoquista. Porque foi divertida. Porque conheci quase toda a gente em alguns dias. Porque criei cumplicidades que na ausência da praxe não teriam acontecido. E por causa da praxe envolvi-me em imensas coisas que não tinham nada a ver com a praxe - mas que apenas se proporcionaram por ter conhecido aquela gente toda durante a praxe. E a minha praxe foi um espectáculo dos bons.